terça-feira, 21 de dezembro de 2021

 

O MAR: MOVIMENTO INICIAL

 

A fala da alma vai logo ser ouvida.

James Joyce

 

Hoje falei com o mar. Ele respondeu com sua profundidade entristecida.

É o holocausto. Eu sou a batalha vencida, porque olho diretamente o que não existia: o grande silêncio equilibrado em frágeis ondulações.

Porque é urgente ouvir essa voz gentilíssima, antes que a claridade aberta se feche sobre a ferocidade de quem ama.

A solidão é um exercício de dolorosa geometria, uma mulher arrebentada por um amor rígido. O corpo é um só músculo e desejo. É a catedral. Contém toda a alegria. Canto um madrigal.

Poema integrante do livro Jardins irregulares, publicado pela editora O Artífice

Foto: Solange Sólon Borges/Cartagena de las Índias/Colômbia


sábado, 28 de agosto de 2021

A Palavra em conchas


Este poema integra o livro À espera dos girassóis - poemas de amor e espera, publicado, em 2021, em segunda edição, pela editora O Artífice.


Olho minhas mãos fechadas como conchas, como ostras a guardar a pérola precisa da palavra que será escrita, vertida para o papel em branco, virgem de sentimentos e semântica.Mas estas mãos, conchas ligeiramente abertas, devem ser como orelhas atentas ao ritmo interno do escritor, cochichando ao ouvido do leitor.

A palavra, íntima, cultivada em águas profundas, chega à superfície, onde, escancarada, pede pausa, reflexão, palma, silêncio. Pede finas estruturas e texturas. Pede a fôrma, o botão de rosa e a boca de todos os amores e desenganos, pois tem raízes libertinas e voos de libélula.

Não se engane: esqueça a opinião alheia. Escreva. A palavra é o cerne, é o centro da Humanidade, dos papiros aos papéis, do códex à tela do micro. A palavra sobrevive a todos esses naufrágios e processos, pois ela tem dignidade, razão, construção, emoção.

A palavra guarda territórios interiores: tem revelações a fazer de dentro para fora. Eu posso dizer ao meu amado: “eu tenho fome”. Mas isso não significa a fome trivial, banal, de panelas vazias e misérias expostas.

Eu tenho fome da palavra perfeita que pode ser moída e revelar assombro, encantamento, pudor, luz, cor, formas, cheiros, sabores, olhares, gingados, abraços, calores… um ciclo inteiro e inevitável de vida que jamais se acabará, pois todas elas estão reservadas e sobrevivem – inquietas – em minhas mãos fechadas como conchas.

Quer saber mais? Visite o site da editora O Artífice e adquira já o seu exemplar!

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

As altas torres da alegria

...mas tenho medo da nudez, pois ela é a palavra final. (Clarice Lispector)


Abissal. Há maneiras de dizer o quanto amo.
É facílimo deixar tudo fora do lugar quando falta seu calor em minha vida incompleta: sonhos cotidianos, prateleiras vazias, pó à volta e abandonadas xícaras de chá.
As palavras enlaçam o que em mim germina. A colheita é certa, mas tenho dúvidas sobre a facilidade das sementes em terras novíssimas diante dos velhos hábitos. Abro a janela: os girassóis espreitam-me, sobressaltados no silêncio, articulados pela luz. No verão, florescem os belos jardins. O inverno chega estreito para que eu mergulhe em profundidades: vejo estruturas emaranhadas para que se busque a seiva íntima e seu fluxo aquecido, como fazem homem e mulher ao longo dos intermináveis milênios.
O que há de diverso nas estações do amor que circulam pelos nossos espíritos?
Você cobre meu corpo como ave migradora que veio de longe conferir a intensidade das sensações. Suas asas se fecham, vigorosas sobre minha pele e sinto a pressão de rocha que busca abrir fendas nessa torrente de amor. Lúcido em seu ritmo, toca veias profundas, nessa conversa íntima da sua pele dentro da minha, tomando posse desse beijo ancestral.
No frêmito do vôo, confundem-se ímpeto e potência, chegada e partida, e luta como se esse fosse o momento único e não restasse força para uma segunda obra. Você tenta, meu amado, mas nada detém o fluxo violento, quando o universo gira veloz e nos inunda de luzes, espasmos e pétalas. Vejo-o ascender e se entrelaçar às minhas raízes, quando derrama o seu fruto.
Nessas altas torres de alegria — onde não há qualquer apoio — nos demoramos ofegantes, girando no espaço livre da felicidade, no império das grandes noites de verão.
Admiro, então, seus olhos calmos. Sorri largamente e constato a metamorfose que se operou — pequena morte, grande vida — em nossos corpos encontrados.

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Fidelidade

O melhor afrodisíaco para a mulher são as palavras.
Isabel Allende


Quero entender o alcance das palavras que hoje cuidam de mim: te amo. Nessa epifania do mar profundo, dou-lhe meu corpo, refúgio último da alma a ser tocada com ternura, para que meu amado se encontre, me encontre e respiremos juntos na mesma pulsação sem variação de dores ou dúvidas. É quando nada precisa ser dito — não porque exista um silêncio ressentido —, mas há o entendimento harmonioso dos que se apaixonam e embarcam com tranqüilidade nesse navio a dois. Posso sentir seu rosto? Como devo tocá-lo? E criamos vocábulos novos — de uma linguagem próxima a nós e desconhecida a todos. Somo minha metade à sua para gozar o que aparenta fero, mas verte delicado: respiração ofegante, mãos que simulam força, corpos em arcos, raio que fulmina, sumo dos oceanos, a fragrância irada dos amores... Seu coração bate junto ao meu, descompassado é verdade, depois de fazer uma obra em mim nesse círculo mágico onde nos colocamos... nessa união total, ainda que impossível, amor é transbordamento e quero essa alegria permanente. Por isso não entendo que quem ama queira ser plural e freqüente outros corpos: fidelidade é história que se repete, cada vez com mais encanto, sentimentos antigos sempre renovados e uma voz que nunca se perde, apesar de envelhecer. Sem lealdade não se celebra porque amor é firmeza, ponto máximo de segurança, raízes fincadas, um novo mundo no mundo, impenetrável para o que é estrangeiro, rocha que não se parte fustigada por águas meigas. O amor tem leveza onde é denso e dele só tenho claridades.